Nesta quinta-feira (28) foi promovida mais uma iniciativa do Ciclo de Palestras SENGE, realizado pelo Conselho Técnico Consultivo (CTC) do Sindicato.
![]() Diretor Gustavo Rocha deu as boas-vindas aos participantes do evento. |
![]() Luiz Antônio Grassi, membro do CTC do SENGE. |
Com a participação de sócios, profissionais de diversas áreas e da comunidade acadêmica, o Dr. Sergio Bampi palestrou sobre a Internet das Coisas, a Indústria 4.0 e Tecnologia da Informação e suas implicações no mercado de trabalho. Professor e coordenador do Instituto de Informática da UFRGS, Bampi é bacharel em Física, mestre em Engenharia Elétrica Microeletrônica, doutor em Engenharia Elétrica – Microeletrônica pela universidade norteamericana Stanford (1986), com pós-doutorado pela mesma instituição.

Na abertura do evento, o coordenador do CTC, Vinicius Galeazzi, apresentou o trabalho desenvolvido pelo Conselho e sua finalidade de assessoramento à diretoria do Sindicato em relação à temas técnicos e de relevância para a sociedade. Nesse sentido, explicou como surgiu a iniciativa do Ciclo de Palestras SENGE, que pretende discutir questões que impactam a população e o mercado de trabalho sob diversos ângulos, como a Reforma Trabalhista, a terceirização da atividade-fim das empresas, o congelamento dos investimentos, a Reforma da Previdência, precarização do trabalho, o desmonte do Estado e o empobrecimento da família brasileira.
Dando início à sua palestra, o professor Sergio Bampi criticou a estagnação dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento no Brasil nas últimas duas décadas, cenário que ataca diretamente a competitividade do país, em detrimento de países asiáticos que mesmo em meio a uma conjuntura global de crise em 2008, ampliaram os investimentos na área.
Criticou também a definição original do conceito de inovação, que se restringe ao ambiente empresarial. Como define o Manual de Oslo, “uma inovação é a implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas“.

Nesse sentido, o professor Bampi propõe uma definição alternativa, baseada na construção de bem-estar social. “A definição original de inovação é dos anos 90 e diz que ela acontece em níveis de empresa. Afirma ainda que se uma inovação não chega a impactar as práticas de mercado, então não é inovadora. Esse é um conceito restrito, micro economicista, carente de uma visão sistêmica e global, com aspectos sociopolíticos que excluem a visão do bem-estar social e a capacidade de inovação na área pública”, afirmou.
Como conceito alternativo, o professor propõe uma visão mais sistêmica, na qual a inovação é resultado de uma aliança política-estratégica: “a inovação em bens e serviços (públicos ou privados) é resultado de um processo social complexo, orientada de fato e valorada pela super-estrutura econômica, social e política de uma dada sociedade”.
Dr. Bampi trouxe ainda dados sobre a evolução do Marco Legal da Ciência e Tecnologia no Brasil, com a criação do CNPq e do CAPES na década de 50, do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e da agência pública de financiamento à inovação FINEP no final da década de 60, a criação de um Ministério da Ciência e Tecnologia nos anos 80, as Leis dos Fundos Setoriais entre os anos 1998 e 2000, até a inovação se tornar prioridade a partir do ano de 2004.

No entanto, nos últimos anos, toda a evolução orçamentária dos fundos de ciência e tecnologia estão se perdendo, especialmente com a saída dos royalties do petróleo como fonte do FNDCT. Este cenário poderia ser diferente, dada a grande capacidade institucional de pesquisa e tecnologia no Brasil, que é pouco usada pelas empresas. Além isso, o professor questionou os motivos que levam os setores empresariais a apoiarem políticas públicas de fomento à ciência, tecnologia e inovação. Como exemplo, citou a Lei Estadual de Inovação nº 13.196, sancionada pela governadora Yeda Crusius, que encontrou grande respaldo entre os empresários menos pela oportunidade de fomento à inovação e à pesquisa científica e tecnológica, do que pelo dispositivo de isenção do ICMS a fundo perdido.
Dando sequência à palestra, o professor Bampi tratou sobre a revolução digital que permite que hoje cerca de 53% da população mundial esteja conectada, definindo a internet como “a grande Ágora onde tudo circula” e onde estão imensos desafios que se referem ao gerenciamento do crescente volume de dados massivos, heterogêneos, dinâmicos e multimídia. E sobre as tecnologias estabelecidas, foi construído o conceito de “Internet das Coisas”, onde a informação digital é pervasiva, integrada, baseada em redes de sensores e sistemas ciber-físicos.
Com o rápido desenvolvimento tecnológico e o barateamento dos componentes eletrônicos, vem se desenvolvimento também a indústria 4.0, ambiente no qual os processos de TI governam todas as tomadas de decisão da empresa, integrados em todos os âmbitos, inclusive ao chão de fábrica que devolve informações precisas a este sistema. Assim, é automatizado não apenas o processo fabril, mas a empresa como um todo, ajustando-se de forma mais precisa às demandas do mercado, difundindo de forma horizontal as tecnologias de microeletrônica e software, bem como os diagnósticos de operação e manutenção. O resultado é a eficientização da produção, mais flexível e em menor escala, eliminando atividades e até postos de trabalho.

Em relação aos impactos das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) no mercado de trabalho, o professor Bampi alertou para a força irreversível e globalizante deste novo modelo, que deslocaliza o trabalho e vem sendo amplamente utilizada por corporações transnacionais, como o Google e a Amazon. Exemplo disso, é que nos Estados Unidos cerca de 56 milhões de pessoas trabalham sem vínculo, a maioria em TIC, na chamada economia Gig, também conhecida como “Freelance Economy” ou “Economia sob demanda”, um ambiente que compreende, de um lado, trabalhadores temporários e sem vínculo empregatício (freelancers, autônomos) e, de outro, empresas que contratam estes trabalhadores independentes para serviços pontuais e ficam isentas de regras como a jornada de trabalho (o chamado “horário comercial”). O termo não é novo, mas se tornou tendência mundial na era digital, impulsionado por empresas como Uber e Amazon .
Com processos cada vez mais automatizados e a evolução da Inteligência Artificial, o professor Bampi apresentou os desafios para enfrentar os impactos das TICs no mercado de trabalho. Entre eles, o investimento e aumento da produtividade, com produção de valor pela informação, ou seja, no momento em que o valor se desloca para a detenção de informação, o paradigma social se desloca para detenção de conhecimento. Abordou também o necessário estímulo a uma educação técnica-científica para um mercado de trabalho em transformação, por meio de um sistema voltado à solução de problemas, à criatividade, ao aprendizado adaptativo e à noção de que precisamos estar sempre buscando novos conhecimentos.
Salientou também a competição, a redução de postos no mercado de trabalho, e a nova postura dos profissionais globais, que demandam recompensas que vão além da remuneração, como o reconhecimento de propósito na sua atividade, locais de trabalho mais colaborativos e menor número de hierarquias.
Toda a disrupção gerada pelas TICs também traz questões que precisam ser analisadas sob a ótica do bem estar social, devido aos desafios provenientes da falta de vínculo, especialmente no que se refere à benefícios e previdência. O professor Bampi também alerta para a necessária rede de apoio ao trabalhador em transição para este novo cenário, bem como a geração de empregos produtivos para os trabalhadores não-TICs e de capacitação média, e uma visão estratégica nacional para a indústria de transformação na área tecnológica.

Salientou ainda que as universidades não estão preparadas para esse cenário, uma vez que a educação é orientada para a transmissão de conhecimento adquirido, e não para a pesquisa. Também os recursos de financiamento estão se tornando escassos e há o grande desafio de formação de recursos humanos para a inovação. “Todo o sistema universitário está sendo desafiado a se reinventar”, disse o professor.
Concluindo a palestra, Dr. Bampi reiterou o propósito de elevação da inovação tecnológica ao patamar de prioridade social, e o papel chave tanto das empresas privadas quanto do setor público no fortalecimento deste sistema. “O Estado deve promover, orientar e articular as atividades inovadoras e os vínculos entre o aparato universitário de ciência e tecnologia, as agências de fomento, os laboratórios públicos e privados de pesquisa e desenvolvimento, e o setor empresarial. A política pública deve priorizar os meios para induzir o desenvolvimento de instituições, sinergias e complementaridades estratégicas para a inovação na sociedade. Deve ainda incluir medidas e programas, formulados em associação com o setor privado, para resolver as falhas de mercado no âmbito do financiamento de longo prazo de projetos inovadores, de acumulação de capacidade tecnológica, do acesso a conhecimentos tecnológicos e de gestão empresarial e de formação de recursos humanos qualificados”, concluiu Dr. Bampi.
A programação do Ciclo de Palestras SENGE segue com a participação do economista David Deccache, que no dia 19 de julho, às 18h, estará no auditório do Sindicato para tratar sobre a crise estrutural do capital na economia brasileira e o fenômeno da uberização.
No dia 31 de julho, às 18h, a doutora em Ciências Sociais, Ludmila Costhek Abílio, irá palestrar sobre o trabalhador intermitente, o trabalhador autônomo e a uberização do trabalho.
As palestras são gratuitas e abertas ao público, sem necessidade de inscrição prévia. Compartilhe. Participe!
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