19/06/2023

“Só informação não basta, é preciso agir”, afirma glaciologista que estará no seminário Mudanças Climáticas

Cientista, explorador polar e pioneiro da Glaciologia no Brasil, Dr. Jefferson Cardia Simões é um dos palestrantes aguardados na programação do seminário Mudanças Climáticas e suas Consequências, evento que ocorre nessa terça-feira, 20/06, no Teatro da Unisinos (Av. Dr. Nilo Peçanha, 1600), em Porto Alegre. O evento é gratuito e ainda recebe inscrições. INSCREVA-SE AQUI

Em entrevista concedida ao SENGE, Simões antecipa o que deverá abordar em sua apresentação durante o evento, que compartilhará seu conhecimento e experiência como membro da Academia Brasileira de Ciências, professor titular de Geografia Polar e Glaciologia da UFRGS e professor colaborador do Climate Change Institute, University of Maine, EUA.

Simões já participou de 28 expedições científicas às duas regiões polares, criou o Centro Polar e Climático da UFRGS, a instituição que lidera no Brasil a pesquisa sobre a neve e o gelo. Ele coordena a participação brasileira nas investigações de testemunhos de gelo antárticos e andinos e faz parte do comitê gestor da iniciativa International Partnerships in Ice Core Sciences (IPICS).

Confira a entrevista:

[SENGE-RS] A partir do seu trabalho como glaciologista e pesquisador antártico quais são as principais evidências que indicam uma crise ambiental em escala planetária? O que nos revela a Antártida?

[Dr. Jefferson Cardia Simões]

Desde 1990, tenho ido à Antártica e liderado os trabalhos de Glaciologia na UFRGS, principalmente em relação ao clima e às mudanças climáticas na Antártica. O cenário é bastante claro, especialmente na parte mais amena e quente do continente, onde o Brasil realiza grande parte de suas atividades. Desde então, temos observado que mais de 90% das geleiras nessa região estão se retraindo. Isso ocorre devido a vários processos, principalmente o aquecimento da atmosfera e das águas superficiais do oceano. Essa situação tem impactado diretamente os organismos vivos. Temos observado uma migração para o Sul de diversas espécies de pinguins e peixes que se reproduzem e nidificam na área. Em outras palavras, estamos testemunhando, aos poucos, a adaptação dessas espécies a novas condições ambientais, embora algumas não possuam a capacidade de se adaptar rapidamente.

Na península antártica, a parte mais amena do continente, temos observado a desintegração das plataformas de gelo desde 1992. As plataformas de gelo são as partes flutuantes da grande camada de gelo da Antártica. Não se trata de um mar congelado. Essas plataformas geralmente têm entre 200 e 500 metros de espessura, podendo chegar a mais de mil metros em alguns lugares, e é a partir delas que se formam os grandes icebergs. Na parte mais amena da Antártica, essas plataformas começaram a se desintegrar, o que é um fenômeno, muitas vezes, catastrófico. Por exemplo, em questão de semanas, uma estação argentina que estava a 30 km da costa, cercada por essa espessa camada de gelo flutuante, encontrava-se em cima de uma ilha e agora está na praia, ou seja, apenas a parte que não era gelo permaneceu. Esses processos são muito rápidos. O sinal é bastante claro, mas é importante ressaltar que isso ocorre especificamente na periferia da Antártica. Na verdade, observamos processos semelhantes na periferia do Ártico, ou seja, no norte do Atlântico Norte, no Mar de Barents, que fica ao norte da Noruega e em direção à Rússia. Essas regiões são particularmente sensíveis às mudanças climáticas e respondem muito mais rapidamente a essas variações nas variáveis climáticas, devido a uma série de retroalimentações.

"O cenário é muito claro. Estamos testemunhando mudanças ambientais rápidas e preocupantes na Antártica, com geleiras se retraindo, plataformas de gelo se desintegrando e espécies migrando para sobreviver. Precisamos agir agora para enfrentar essa crise climática."

O cenário é muito claro. A grande questão é o que acontecerá nos próximos anos. Não posso deixar de mencionar também que estamos observando o chamado “esverdeamento da superfície” na periferia das duas regiões polares. Isso significa que algumas espécies começaram a se reproduzir mais rapidamente, principalmente gramíneas e alguns musgos que estavam presentes em latitudes mais baixas, ou seja, em regiões temperadas, estão se expandindo em direção às regiões polares. Algumas ilhas que antes não possuíam cobertura vegetal estão começando a apresentar esse tipo de vegetação. Portanto, é um cenário bastante claro de respostas às mudanças ambientais. Temos que ter consciência de que o clima é caracterizado por mudanças rápidas. Sempre houve mudanças em diferentes escalas de tempo no sistema Terra e nas interações entre as diferentes partes do sistema ambiental. O problema reside na velocidade com que essas mudanças têm ocorrido desde a década de 1990. Nenhum processo que conhecemos tende a acelerar. Essa é a principal questão. Vou abordar especificamente o que temos observado em relação à perda de massa de gelo do planeta, ou seja, na criosfera, que ainda cobre 10% da superfície da Terra.

 

[SENGE-RS] Em termos de conscientização parece que estamos já suficientemente, ou ao menos aparentemente informados. Em termos de ação ainda temos barreiras significantes a vencer. Qual sua opinião a respeito?

[Dr. Jefferson Cardia Simões]

é importante compreender que apenas ter informação não é suficiente. É evidente que é necessário agir. Um dos grandes problemas que enfrentamos atualmente, que se tornou mais evidente durante a pandemia, mas que existe há mais de 30 anos, é a questão da desinformação. Ou seja, as pessoas tendem a moldar sua percepção do mundo com base em seus próprios valores, experiências de vida e posição na sociedade. Houve uma clara tentativa, ao longo do tempo, de disseminar campanhas de desinformação financiadas por certos grupos que não têm interesse na conscientização ambiental. Essas campanhas visam mais a desacreditar do que a informar, a influenciar ações e decisões. Muitas delas são de natureza política.

Recentemente, tivemos o caso da desinformação em relação às vacinas e às alegações sobre o processo de vacinação. No entanto, é importante ressaltar que isso não é novidade. Assim como nas mudanças climáticas, há 30 anos sofremos uma campanha de desinformação promovida por algumas indústrias de petróleo mais conservadoras. Elas utilizaram inclusive o mesmo modelo publicitário que foi empregado na questão do tabagismo. Durante três décadas, a indústria do tabaco negou os problemas causados pelo fumo à saúde humana, chegando ao ponto de financiar pesquisadores que produziam dados falsos para negar o problema. Essa estratégia também foi adotada diversas vezes por governos mais conservadores dos Estados Unidos, principalmente devido ao medo de perdas econômicas e mudanças nos modelos econômicos.

O que estamos presenciando é que não há um planeta finito com recursos infinitos. Negar esses processos não é, de forma alguma, uma solução. Estamos apenas adiando decisões extremamente importantes sobre como queremos nos relacionar com o meio ambiente. Isso vai muito além, pois envolve a própria questão das relações que estabelecemos na sociedade moderna.

 

[SENGE-RS] No Brasil, um trabalho bastante educativo vem sendo feito pelo Museu do Amanhã no Rio de Janeiro ao manter uma instalação permanente tratando do Antropoceno, teoria que reconhece e denuncia que a intervenção humana já causa mudanças sensíveis no planeta, inclusive com a grave revelação de que teríamos apenas mais 200 anos de vida na Terra caso a crise não seja revertida imediatamente. Qual a sua opinião sobre a teoria do Antropoceno?

[Dr. Jefferson Cardia Simões]

Para discutir a questão do Antropoceno, precisamos entender que, ao longo dos últimos 11.700 anos, coincidindo com o desenvolvimento de diferentes culturas até chegarmos à era moderna e ao presente, vivemos em um sistema climático que era relativamente estável em comparação com o passado. Por exemplo, há 20 mil, 30 mil, 40 mil ou 50 mil anos, quando estávamos no meio de uma era glacial. Até o final do século 1920, acreditava-se que a interferência humana não poderia ser maior do que a variabilidade natural do sistema químico, ou pelo menos que não seria perceptível. Então, Paul Kruzan, ganhador do Prêmio Nobel pela descoberta da questão do ozônio, desenvolveu toda a teoria química e depois confirmou a descoberta da depleção do ozônio nas regiões polares. Ele trouxe o conceito do Antropoceno para marcar a partir de qual ponto a interferência humana em todas as partes do sistema Terra, incluindo a superfície da crosta, a atmosfera e a biota, começa a ser afetada de tal maneira que deixará um sinal para as gerações futuras. Ainda não está claro se essa interferência terá um impacto tão marcante a ponto de ser notável no futuro. O que se acredita, no entanto, é que talvez ocorra uma extinção em massa, uma redução abrupta e absurda do número de espécies, como um dos principais sinais do Antropoceno.

Diz-se hoje que, ao longo da história geológica do planeta, houve cinco grandes extinções, principalmente determinadas pela taxa de extinção de espécies por ano. Essa seria a sexta grande extinção, que ficaria registrada nos registros geológicos. Em outras palavras, daqui a milhões de anos, perceberemos que houve uma interferência que buscou modificar o meio ambiente. No passado, tivemos quedas de meteoritos, mudanças climáticas naturais, principalmente devido a variações na radiação solar, e agora teríamos esse novo agente, que é o nosso processo de destruição de diferentes partes do meio ambiente. Ainda existem muitas questões em aberto, como qual será o limite a partir do qual essa interferência ficará registrada. O mais importante é que entendamos que, no atual desenvolvimento científico e tecnológico, em termos de geração de energia, a alta queima de hidrocarbonetos e a identificação do efeito estufa e de tantos outros poluentes na atmosfera, que é a parte mais suscetível a ser afetada, não são viáveis. Precisamos encontrar outras soluções.

"Ao desestabilizar o sistema climático, estamos criando um sério problema de instabilidade econômica e de vida, com uma crise ambiental que se torna cada vez mais evidente."

É interessante notar essas posturas catastróficas. Temos mais 200 ou 300 anos de sobrevida, ou o mundo vai acabar amanhã. Ambas as opções estão erradas. Não, não estamos caminhando para um fim absoluto, como se nada estivesse acontecendo. Certamente não vamos acabar com o planeta. O que faremos, no entanto, é tornar a vida cada vez mais desconfortável, principalmente para a população mais carente e sensível às pequenas variações no meio ambiente e na economia. Estamos nos encaminhando para uma grave crise econômica, social e mental. Já vimos isso acontecer em vários momentos da evolução de diferentes culturas, como é o caso dos povos pré-colombianos, como os Maias, que foram extintos devido a uma crise ambiental. Estamos criando um sério problema de instabilidade econômica e de vida com uma crise ambiental que está se tornando cada vez mais evidente. Ao desestabilizar o sistema climático, aumentamos sua variabilidade. Isso, cedo ou tarde, afetará a agricultura. Começamos a alterar a distribuição dos padrões climáticos. No entanto, como sempre digo, a população mais afetada é aquela mais carente. Precisamos ser realistas sobre o que estamos testemunhando e mudando.

Sim, temos cenários de aumento de temperatura de 3°C a 4°C ou até mesmo 5°C em média, se não fizermos nada. Isso terá uma série de consequências, desde mudanças no nível do mar até o aumento de eventos extremos, considerando também uma população que está se aproximando dos 8 bilhões de indivíduos. Portanto, precisamos ter uma visão mais global do problema.

 

[SENGE-RS] Na sua opinião quais seriam as tarefas/providências mais urgente e de curto prazo que cada cidadão poderia adotar, e claro, o papel decisivo dos governantes?

[Dr. Jefferson Cardia Simões] Olha, podemos ter uma visão macro e micro dessa questão do que fazer. A grande questão é que é uma decisão política. É uma decisão sobre o modelo econômico. É uma decisão sobre quais valores queremos dessa curta experiência de vida que temos neste planeta. Do jeito que está, o consumismo exacerbado, que aliás, não serve para nada, tanto por parte das sociedades mais ricas quanto por parte de grupos sociais mais abastados nos países ainda em desenvolvimento, com esse consumo energético desenfreado e muitas vezes de bens que não aumentam a qualidade de vida nem a felicidade, se torna inviável. Então, temos que mudar o modelo econômico considerando, na economia, o custo mental. Na malha de custos de empresas, de governos, de ações, no nosso dia a dia, temos que considerar cada ação como um custo mental. Isso tem que fazer parte da economia. E aí vamos nos dar conta de que isso é muito caro, algo que não se considera. Raramente ainda algumas companhias estão considerando, mas, se estiver nas economias globais, é algo que passa longe. A solução do indivíduo, evidentemente, é fazer pressão política, ele pode ajudar em algumas coisas. Estamos conscientizando cada vez mais as pessoas no uso do plástico, na separação do lixo, que ainda é muito pouco aproveitado. Queria destacar que no Brasil é menos de 10%, mas não me envolvo nessas discussões. É também uma questão do uso da terra. É uma questão do urbanismo. Então, é muito mais amplo. A questão ambiental vai muito além do que apenas a mudança do clima, que está relacionada à mudança de uma série de variáveis na atmosfera.

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